Moeda virtual: gastar sem sentir que gastou
Quem entra com o Google no Dopashop ganha 100 moedas na hora. Depois, 20 por dia, toda vez que aparece. Cada pedido fechado dá mais 10.
As cápsulas custam 50, 150 e 400. Faz a conta: a lendária, se você começar do zero, sai em quinze dias de voltar aqui.
Não é o preço de um objeto. É o preço da sua frequência.
Moeda que não é dinheiro não dói
Gastar 400 de qualquer coisa é indolor quando essa coisa não paga aluguel. A cabeça guarda dinheiro numa gaveta e ficha de fliperama em outra, e a segunda gaveta não tem alarme.
Isso já foi medido de vários jeitos e o resultado costuma ser o mesmo: quanto mais distante do dinheiro vivo, mais fácil gastar. Cartão sai mais que cédula. Ficha de cassino sai mais que cartão. E moeda de site, que nem existe fora do site, sai mais fácil que tudo.
A distância também apaga a comparação. Quatrocentas moedas não se comparam com nada que você conheça, então não dá pra pensar “isso é caro”. Caro em relação a quê?
A diferença que muda tudo
Moeda daqui não se compra. Não existe botão pra converter dinheiro em moeda, não existe pacote de 500 por R$ 9,90, não existe nada. Só dá pra conseguir aparecendo.
E isso corta fora a parte que causa estrago de verdade lá fora. Numa loja ou num jogo com moeda comprável, o desenho todo aponta pro mesmo lugar: você quer o item, ganhar moeda leva tempo, e existe um atalho pago bem ali. O tempo vira o vendedor.
Aqui o atalho não existe, então a moeda só consegue te pedir uma coisa, que é voltar amanhã.
Os parentes disso fora daqui
Programa de pontos de cartão e de companhia aérea é o caso mais antigo. A conversão é opaca de propósito: você sabe quantos pontos tem, não sabe quanto valem, e descobre só na hora de trocar.
Cashback em “créditos” que só valem na própria loja é outro. O nome diz dinheiro de volta, mas o que volta só circula lá dentro.
E vale-presente, que é a versão mais educada: alguém converte dinheiro em algo que só serve num lugar, e o pedaço que ninguém gasta fica com a loja.
Como pensar sobre isso
A pergunta que eu acho útil é quanto custa produzir a moeda, não quanto ela vale. Vinte moedas por dia custam uma visita. Se a visita é uma coisa que você ia fazer de qualquer jeito, o preço é zero e está tudo certo. Se você está entrando só pra bater o ponto, aí a moeda está comprando o seu tempo, e o câmbio é péssimo.
Vale também perguntar o que acontece se você parar. Aqui não acontece nada: seu saldo fica lá, ninguém expira nada, e nenhum e-mail vai aparecer te cobrando. Programa de pontos de verdade costuma responder diferente, e o prazo de validade é a parte mais reveladora do desenho.
Por que o Dopashop tem moeda
Porque sem ela a cápsula seria só um botão, e botão que dá prêmio de graça não tem graça nenhuma. A moeda é o que faz o prêmio custar alguma coisa, e prêmio que custa é o único que dá prazer quando sai.
O que a moeda custa aqui é atenção, e eu preferi te dizer isso em vez de deixar você descobrir sozinho no décimo quinto dia.